sábado, 30 de agosto de 2008

A Peste


Ao ler o livro do Albert Camus, A Peste, percebemos que no flagelo das multidões, seja pela doença como no livro ou em situação de guerra, o sofrimento é homogêneo e por assim dizer, também os sentimentos se homogeinizam. Não existe lugar para a singularidade e unicidade do indivíduo na sua existência. Aonde está a liberdade do sujeto que deve se sujeitar às condições de existência de sua época? O livro ganhou o prêmio Nobel de 1957, portanto, após a 2ª Guerra Mundial. Camus faz uma analogia tão maravilhosa da Peste com a Guerra que não é possível ler o livro e não pensar no nazismo, no genocídio dos judeus, que contemplam os mecanismos de "limpeza social", as separações dos indivíduos, o exílio, as mortes, as montanhas de corpos. Ele descreve o sofrimento humano, a banalização do sofrimento, e faz-nos refletir sobre os papéis de cada cidadão cujas funções são determinantes para a vida da cidade, como a do médico e a do padre. Faz-nos pensar se a vida humana não é em si um constante flagelo no sentido de vivermos numa espécie de estado de sítio de nós mesmos, faz-nos perceber que não nos permitimos viver certas coisas, não por termos horário fixado rigidamente para nos recolhermos às nossas casas, ou para apagarmos as luzes, sob ameaça de sermos metralhados, por exemplo, mas por não termos coragem, por termos medo de nos entregar, quer seja ao amor ao outro ou à realização de ideais. Por nos sentirmos impotentes diante do tédio que nos cerca. E nesse sentido, a analogia de Camus não perpassa apenas a situação de guerra, mas nos remete ao absurdo da nossa vida cotidiana. Somente quando há impedimentos definidos pelas autoridades, pela cidade, pelo país, é que sentimos de fato as nossas limitações, o nosso cerceamento, a nossa prisão, além de termos um motivo claro para não realizarmos o que almejamos, ou para não sermos quem somos. E quando chega ao fim o período das restrições impostas, como ocorre no livro quando há o controle social da peste, torna-se um imperativo comemorar e viver intensamente, mesmo que seja por poucas horas, como diz Camus. Independente dos que ainda choram pela morte dos entes queridos. Mas aos poucos, tudo volta ao normal, a vida continua em sua forma ínfima cheia de empecilhos que a restringem e que vêm da alienação do ser humano em relação a si mesmo e ao mundo e de tudo o mais que tolhe e oprime o pensar, o sentir e o agir humano. A peste está dentro de cada um de nós, ela não é só peste bubônica, é peste emocional... E às vezes não temos muito tempo de fazer algo a respeito, pois a fatalidade nos atinge, sem nos avisar...


quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Nada a dizer



Quando eu demonstrei muitas vezes o que queria, foi para afastá-lo de mim, foi para obter o distanciamento dele. Sabia que não conseguiria obter qualquer resposta, mas precisava falar, para não tê-lo. Para sentir a indiferença e descartá-lo dos meus pensamentos. Mesmo que parecesse uma tentativa de resgatá-lo, por meio de palavras vazias... Pois já sabia que não viria. Quando eu parei de dizer, quando me calei, esperava que ele tornasse a aparecer, assim, de repente, quando eu não estivesse esperando... E não estava, já havia me acostumando, de fato, com a ausência. E me cercara de uma certa vergonha, misturada com orgulho, em ter insistido em obter a atenção dele. E ele não aparecera mais, apenas fiquei sabendo depois, que se casara, que se tornara pai. E foi aí que eu pensei... Se eu tivesse me calado... Se desde o início eu tivesse aceitado a frustração de não ter sido correspondida, se eu não tivesse sido tão sincera, tão honesta, se eu tivesse esperado, passiva, sem nada dizer e tudo calar, talvez... Talvez eu não o tivesse afastado... Talvez, ele não tivesse sumido... Talvez eu o tivesse esperado... sem nada dizer...


terça-feira, 26 de agosto de 2008

Vida

A vida quer sempre mais vida.

É tão forte a força da vida que as tentativas de destruição da natureza ficam como se fossem nada perto da força vital. De tudo o que tem vida, ser humano, micróbio, vegetal, ameba, células malignas... tudo o que é orgânico, e até o inorgânico, se é que pode-se chamar de inorgânico o que existe na natureza, pois tudo o que tem substância, tem corpo, tem alguma espécie de vida, mesmo que seja um ser anaeróbio, e venha da multiplicação do lixo, ou a pedra que parece só uma coisa, mas tem sua história de sedimentações e desgastes e forças que a impulsionam ou a detém. E o ar que não vemos, mas respiramos, significa a vida em sua mais pura essência, é do que depende a nossa sobrevivência, é donde vem o primeiro sopro de vida do bebê ao nascer e chorar. Força, berro, pulmões estridentes, dor... vida. Sentimentos... vida. Natureza... vida. Cuidado... proteger a vida. Caminhar... até o fim da vida.