segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

ILUSÃO

Foto Google

Não queria ouvir de novo aquela canção que fala de amor. Ela (canção) já ensurdecera na margem do tempo. E o velho teclado estava mudo, as cordas gastas, o sopro se fora sem mais ar nem suor, sem mais voz nem sorriso. Aquilo tudo se acabara numa imagem de paraíso perdido, sem véus, sem ilusões, choros ou velas. Ficou tão real. Tão escandalosamente real e concreto que se partiu em mil pedaços. Não seria nem possível reunir os cacos, todos espalhados, sem qualquer sentido.
E o último fio de Ariadne que conduziria à saída mais pura e bela do labirinto tornou-se invisível. E aquele desejo que prometia o súbito e nítido prazer da mais doce aventura romântica desaparecera. E a fumaça que esvaecia a trégua entre os amantes não mais provocou o escotoma da paixão louca, nem mesmo a boca esperou o beijo, nem a carne esmoreceu ou tremeu.
E tudo o que houvera fora em torno de um delírio que jamais aconteceu. E nada do que se ouvia poderia resgatar as lembranças de sonhos e poesia. Àquela hora da madrugada a respiração rompia o silêncio da memória mais fria. Sentia-se vazia e sem mais ilusão, sofria.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

SAUDADE

(Foto Google)


Está chovendo. Após longa estiagem. É assim que imagino como será quando o verei novamente. Após tantos dias, semanas, meses... esperando... chove. E, chuva, traz um ar bom, melhora o clima, umedece a terra, brota a vida. Assim como a visão dele me trará alegria, assim a chuva vai molhar o dia.




segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

POEMA DA NOITE SEM LUA

Foto Felix Richter - Série Hades

Se às vezes eu sinto que quero você
É porque o vento soprou forte
No calor da noite sem Lua
E balançou meus cabelos
E mexeu com meus afetos
Que ficaram livres
Sem direção.

Não te aflijas com a pétala que voa

Também é ser deixar de ser assim

Rosas verás só de cinza florida

Mortas intactas pelo teu jardim

Eu deixo aroma até nos meus espinhos

Ao longe o vento vai falando em mim

E por perder-me é que me vão lambrando

Por desfolhar-me é que não tenho fim.
(Cecília Meireles)