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Não queria ouvir de novo aquela canção que fala de amor. Ela (canção) já ensurdecera na margem do tempo. E o velho teclado estava mudo, as cordas gastas, o sopro se fora sem mais ar nem suor, sem mais voz nem sorriso. Aquilo tudo se acabara numa imagem de paraíso perdido, sem véus, sem ilusões, choros ou velas. Ficou tão real. Tão escandalosamente real e concreto que se partiu em mil pedaços. Não seria nem possível reunir os cacos, todos espalhados, sem qualquer sentido.
E o último fio de Ariadne que conduziria à saída mais pura e bela do labirinto tornou-se invisível. E aquele desejo que prometia o súbito e nítido prazer da mais doce aventura romântica desaparecera. E a fumaça que esvaecia a trégua entre os amantes não mais provocou o escotoma da paixão louca, nem mesmo a boca esperou o beijo, nem a carne esmoreceu ou tremeu.
E tudo o que houvera fora em torno de um delírio que jamais aconteceu. E nada do que se ouvia poderia resgatar as lembranças de sonhos e poesia. Àquela hora da madrugada a respiração rompia o silêncio da memória mais fria. Sentia-se vazia e sem mais ilusão, sofria.




